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Refugiados

Venezuelanos pedem esmola em Teresina e conseguem juntar até R$ 100 por dia

rupo de venezuelanos está abrigado em um antigo mercado na zona Norte da cidade e, além de receber doações, estão agora nas ruas, pedindo esmolas.

26/05/2019 23h06
Por: Edição Paula Andréas
Fonte: Reportagem do Oitomeia
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É comum ler “Não dê esmola. Dê cidadania” pelas ruas e avenidas de todo o Brasil. Em Teresina, é possível encontrar o anunciado em placas metálicas com a marca da Prefeitura Municipal. O curioso é que, junto a isso, vem o contexto de crise econômica no País e o desemprego que atinge 13,3 milhões.

Mas agora uma leva de venezuelanos tem fugido da ditadura do presidente Nicolás Maduro e veem o Brasil como uma oportunidade de fugir dos embates político-ideológicos que assola o país vizinho, onde a fome, o desabastecimento de água potável e a crise elétrica aflige a população. Nos últimos dias, vários desses estrangeiros escolheram Teresina para se refugiar.

VENEZUELANOS PEDINDO ESMOLA

Placas de isopor, chapéus de palha, roupas coloridas, recipientes plásticos, normalmente garrafas PET cortadas ao meio para guardar o dinheiro arrecadado, viraram os adereços principais de dezenas de venezuelanos, de origem indígena, espalhados pelos principais cruzamentos de Teresina. Todos os dias, famílias se espalham pela cidade para garantirem o mínimo necessário para os filhos, que também enfrentam as altas temperaturas nos colos e ombros dos pais e mães.

Enquanto levantam placas em português pedindo ajuda aos motoristas, o olhar tímido refletido no fumê dos vidros dos carros expõe o nível de sofrimento desse povo na Venezuela, que sai do país de origem para esmolar num estado brasileiro cujo desenvolvimento humano é um dos piores do Brasil. E nessa rotina de quem abre as janelas dos veículos para estender a mão aos hermanos e quem se mantém anestesiado à cena de uma criança de cinco anos naturalizando a vida na rua, está o jovem Ramón Rattia, 25 anos, refugiado com a esposa e três filhos em Teresina.

SIM, ELE GOSTARIA DE TRABALHAR

 

Ramón não fala português. O cartaz que ele e a mulher usam para pedir dinheiro foi confeccionado por uma pessoa em Teresina que tem ajudado sua família. E ele topou contar o motivo pedir esmola na capital piauiense. Apesar da pouca idade, as marcas do sofrimento no seu país de origem, o deixaram com uma aparência bem mais velha. Simpático, arranhando um portunhol para ser entendido, ele chegou a Teresina há cerca de uma semana. Veio de ônibus, pedindo ajuda para pagar R$ 260 de cada membro da família. Antes do Piauí, ele passou uma temporada em Belém do Pará e relatou conhecer gente que está em São Luís do Maranhão.

 

A família é sempre unida. Ramón e a esposa, Maria Mororio, 22 anos, sempre estão com os três filhos. Na quinta-feira passada (23/05), quando toparam falar à esta reportagem, apenas dois tinham ido às ruas: o mais velho, de 5 anos, e o mais novo, de apenas 6 meses, que é brasileiro, nascido no Pará, e que não se desgrudava do colo da mãe lactante. Perguntado se gostaria de trabalhar, Rámon admite que sim, mas que a falta de emprego o fez pedir esmola nas ruas.

 

FOME MOTIVOU IMIGRAÇÃO

 

Sem papas na língua, coube somente a Ramón apontar o que o trouxe, assim como toda a família, para Teresina. O jovem foi categórico quanto à fome: “Lá não tem comida”. O que para muitos no Brasil pode ser uma opção, na terra onde há a maior produção de petróleo da América Latina, ficar sem comer, pelo menos uma alimentação de qualidade três vezes por dia, é um dos principais motivos de todo esse êxodo à ex-colônia portuguesa. “Até a água que a gente bebia era do rio”, prosseguiu.

 

Com escolaridade baixa, já que estudou somente dos 10 aos 16 anos, Ramón explica que buscou por emprego em Teresina. Somente após vários ‘nãos’, ele decidiu ir às ruas pedir dinheiro, cujo valor arrecadado por dia varia entre R$ 80 e R$ 100, juntando com o que a esposa consegue. O valor arrecadado é usado principalmente para comprar mantimentos aos filhos, produtos de higiene pessoal, fraldas e leite para o hijo (filho) mais novo, aquele de apenas seis meses que não sai do colo da mãe.

 

VENEZUELANO QUER FICAR EM TERESINA

“Existem pessoas que nos ajudam, dando um, dois ou três reais”, contou Ramón. O OitoMeia seguiu a entrevista e questionou se viver como pedinte em Teresina é melhor do que na Venezuela. “Sim, aqui é melhor. Isso seria como um salário para nós. Na Venezuela tem nada disso. A gente não consegue nem isso [valor que arrecadam nas ruas] na Venezuela. Eu quero achar um emprego e sair das ruas”, desabafou. Mesmo com a escolaridade mínima, o jovem garante ter muitas qualificações: “Eu sou agricultor, pescador, pinto casas e sou cabeleireiro”.

Sim, aqui [em Teresina] é melhor. Isso seria como um salário para nós. Na Venezuela tem nada disso. A gente não consegue nem isso [valor que arrecadam nas ruas] na Venezuela. Eu quero achar um emprego e sair das ruas.

 

“Eu organizei a nossa entidade, com o caminhão, com ônibus, para fazer o translado deles da praça [do Estádio Lindolfo Monteiro] para o Poti Velho. De repente, aparece a Pastoral de Rua, dizendo que daria a alimentação, a ONG ‘Eu Quero Ajudar’, trazendo água. Fomos todos ao espaço, insalubre, mas melhor do que a rua. Escolhemos o Poti Velho porque é um centro social que a gente administra, num contexto em que a própria cidade de Teresina começou lá”, explicou Júnior MP3.

 

COMUNIDADE ABRAÇA REFUGIADOS

 

Imediatamente, campanhas de arrecadação foram criadas e muita coisa foi doada. A própria reportagem, que esteve no local onde os venezuelanos se alojam, constatou a solidariedade de quem está além dos carros climatizados nas vias de Teresina. A comunidade abraçou a causa e sempre alguém do bairro aparece no alojamento para prestar algum serviço ou apenas matar certa curiosidade a respeito do mais novo contexto sociocultural naquela região da zona Norte de Teresina.

 

Uma dessas pessoas do Poti Velho é a diarista Marta Regina, que todos os dias dá uma passada no alojamento para prestar algum serviço aos novos moradores. “Eu venho porque eu gosto de ficar aqui com eles, observá-los e ver como eles se comportam”, frisou. E a timidez não ficou apenas com os venezuelanos, pois não teve quem fizesse esta nobre teresinense aceitar ser fotografada ou gravar uma entrevista em áudio. Por outro lado, ela foi bastante solícita quanto ao fornecimento de informações colhidas pelo OitoMeia no alojamento.

 

Muitos venezuelanos estão espalhados pelo Brasil na mesma situação de Ramón Rattia (Foto: Reprodução)

“SÓ ANDAM DE TÁXI E MOTOTÁXI”

Como boa observadora, ela tratou logo de descrever alguns comportamentos dos refugiados. “Aqui, ninguém fala nada. Olha só como ela [mulher com um bebê] saiu quando você chegou. Até fechou a porta”. Marta Regina fez questão de deixar claro que, embora não tenham condições mais dignas de moradia, aos estrangeiros, falta nada. “Aqui eles têm tudo: água, comida, roupa, mas eles vão pedir dinheiro para comprarem o que eles gostam. Por exemplo, eles gostam muito de macaxeira, abóbora, peixe. Eles comem muito peixe mesmo”, comentou.

 

Aqui eles têm tudo: água, comida, roupa, mas eles vão pedir dinheiro para comprarem o que eles gostam. Por exemplo, eles gostam muito de macaxeira, abóbora, peixe

 

 Em meio a todo esse movimento pela cidade, ao tudo indica, os venezuelanos já assimilaram bem o quanto o transporte público de Teresina é ruim. Segundo Marta Regina, eles não usam o ônibus: “Apenas táxi e mototáxi”. A afirmação não ficou apenas nas palavras da voluntária, de maneira que o OitoMeia flagrou vários momentos em que os refugiados desciam dos carros, chegando ao alojamento para almoçar após uma manhã inteira nas ruas pedindo esmolas.

 

PREFEITURA DIZ QUE É PASSAGEIRO

 

A estadia dos venezuelanos não é uma responsabilidade exclusiva de ONGs. O poder público, sobretudo a Prefeitura de Teresina, está sensível à situação e mobiliza várias secretarias para atuar no sentido de amenizar o sofrimento dessas pessoas. O delegado Samuel Silveira, secretário Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi), pontuou o deslocamento de assistentes sociais pela pasta que dialogam com os refugiados. Além disso, no dia em que a reportagem esteve no Centro Piratinga, uma equipe da Fundação Municipal de Saúde (FMS) esteve no local para coletar água para testes de qualidade.

 

“Recentemente, a prefeitura participou de uma ação junto com o MP3, a Pastoral de Rua e Cáritas. A assistência social do Município tem feito o seu trabalho de acompanhamento, de colocação de cestas básicas e também estamos melhorando o espaço onde eles estão alojados. Esse é um trabalho praxe da assistência social”, pontuou Samuel. Questionado quanto à permanência dos venezuelanos em Teresina, o delegado afirmou que eles estão aqui de forma passageira e que devem ir para outros estados, pois “a característica dessa população é transitar entre as regiões do Brasil por enfrentarem uma crise no país de origem”.

 

Ao contrário do que disse a Semcaspi, Ramón deixou bem claro que pretende criar raízes em Teresina, assim como outros colegas. Priscila Jacob, fundadora da ONG “Eu Quero Ajudar” (EQA), disse que os refugiados não pretendem sair da capital e que não tem conhecimento da versão do delegado Samuel sobre isso. “Mas, independente da intenção dos mesmos, optaremos por ajudar enquanto estiverem em solo teresinense”, disparou. Junior MP3 informou que a permanência dos venezuelanos na cidade será decidida em conjunto.

 

PESQUISADORA LAMENTA XENOFOBIA

 

Lila Luz, professora do mestrado em Sociologia da Universidade Federal do Piauí (Ufpi), doutora em Sociologia pela PUC São Paulo e com pós-doutorado na Universidade Nacional Autônoma do México, conversou com o OitoMeia a respeito da imigração de venezuelanos para Teresina. Em sintonia com o discurso do secretário de Assistência Social, a especialista em conflitos envolvendo jovens na América Latina destaca que, na teoria, essas pessoas pretendem retornar ao país de origem assim que o mesmo oferecer melhores condições de vida.

 

A professora lamenta o fato de o Brasil ter se isolado da América Latina e que isso faz com que discursos xenofóbicos sejam propagados na mídia por conta do acolhimento desses venezuelanos em Teresina. Muitos nativos, então, acreditam que os estrangeiros vieram a com única intenção de disputar o mercado de trabalho, comida e assistência do Estado, esta que, na verdade, deixa muito a desejar quanto aos próprios teresinenses, piauienses e brasileiros como um todo.

 

“Uma das primeiras reportagens que eu assisti em relação à chegada desses povos teve a criação de ideias xenofóbicas. Como as pessoas não circulam muito entre os diferentes, elas acham que os venezuelanos vêm disputar a comida, o território, como se a gente tivesse perfeito aqui”, expressou a professora, que relatou episódios xenofobia vividos quando morava na Itália, ao contrário do período que residiu em diversos países da América Latina. Nesse sentido, Lila aponta que a mesma imagem de venezuelanos e/ou haitianos refugiados no Brasil não é construída com a vinda de europeus e americanos, inclusive quando a intenção deles é para o turismo sexual.

 

180 MIL DESEMPREGADOS NO PIAUÍ

 

Como já desenhado no início da reportagem, o Brasil vive uma situação de crise, sobretudo na geração de emprego. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), por exemplo, no dia 16 de maio, divulgou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Na ocasião, reafirmou o número de 13,3 milhões de desocupados no Brasil no primeiro trimestre de 2019. A realidade do Piauí, assim como em outros 13 estados, foi de aumento no número de desempregados, subindo de 12,3% para 12,7%. Isso representa 184 mil pessoas que precisam de trabalho.

 

Como as pessoas [teresinenses] não circulam muito entre os diferentes, elas acham que os venezuelanos vêm disputar a comida, o território, como se a gente tivesse perfeito aqui

 

Piauí detinha a 14ª maior taxa de desocupação do país, enquanto o Amapá apresentava a maior (20,2%) e Santa Catarina a menor (7,2%). A situação piauiense se complica quando se leva em consideração a taxa composta da subutilização da força de trabalho, ou seja, são considerados subocupados aqueles que trabalham menos de 40 horas por semanas, mas que gostariam de trabalhar mais. O Piauí tem a maior taxa (41,6%), seguido do Maranhão (41,1%) e Bahia (40,4%).

 

Outro quadro negativo ao Piauí diz respeito ao número de trabalhadores sem carteira assinada. O estado tem o segundo maior percentual do Brasil, o que representa 47,8% dos empregados no setor privado, perdendo apenas para o Maranhão, com 49,5%. Santa Catarina (13,2%) e Rio Grande do Sul (18%) figuram o outro lado da tabela, tendo os menores percentuais de pessoas trabalhando informalmente no setor privado.

 

PIAUÍ COM BAIXO DESENVOLVIMENTO HUMANO

 

No campo do desenvolvimento humano, o Brasil não é o melhor exemplo e, inclusive, está atrás da Venezuela no Ranking IDH Global 2014, com base no Relatório de Desenvolvimento Humano 2015. A informação está disponível no site do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnude). O Radar IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) destaca que o Piauí teve a terceira menor evolução no levantamento, entre 2012 e 2017, estando entre as quatro unidades federativas classificadas com médio desenvolvimento. As demais possuem alto e muito alto desenvolvimento, levando em conta a educação, renda e longevidade.

Piauí teve o terceiro menor IDHM do Brasil entre 2012 e 2017 (Reprodução Radar IDHM)

Como pontuou a professora Lila Luz, a vida na América Latina está difícil para todos, conglomerado territorial, étnico, social e cultural marcado por constantes conflitos instigados por governos locais, milícias, grupos paramilitares e forças estrangeiras imperialistas. Com esse caos, as populações dessas regiões, sobretudo os povos originários, são forçados a uma imigração em busca de sobrevivência, justamente o que acontece nas relações Venezuela-Brasil, África e Oriente Médio-Europa e Honduras e Guatemala-EUA.

Este, portanto, não seria um movimento migratório semelhante às Grandes Navegações, todavia sem a intenção de saquear, escravizar e exterminar? Por parte das nações hegemônicas, “descobrir”, “explorar” e “catequizar” pode ser muito fácil, mas tornar-se responsável pelo que cativou são outros quinhentos.

 

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