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VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA
Postada em 03/02/2017 ás 11h32 - atualizada em 03/02/2017 ás 14h16
Reportagem: A face invisível dos partos no hospital de Luzilândia
Todos sabemos que existe dor no parto, mas ela não precisa ser traumática.
 Reportagem: A face invisível dos partos no hospital de Luzilândia

“Estou aqui nessa cama de hospital já fazem cinco dias. Hoje acordei pensando que tudo poderia ter tomado outro rumo, se o médico de plantão, Dr. Tiago Coutinho, tivesse me ouvido quando chorei diante dele e pedi que me transferisse para fazer uma cesariana em outro lugar. Pois naquele momento eu já sabia que não estava sentindo dores suficientes para ter meu filho em parto normal. Me deram uma injeção de força, me deram duas, três, parei de contar, me machucaram, e esse sofrimento só não se prolongou porque eu, simplesmente ainda sobre a maca onde ficamos para parir, com o pouco fôlego que eu ainda tinha, parei e disse que eu não iria mais botar força, até porque já não sabia de onde tirar, e mais uma vez pedi ao médico que me transferisse para o lugar mais perto pra ter meu filho, eles viram que não tinham mais domínio da situação e resolveram falar com meus familiares. “



Esse é o relato de Vânia Paiva, uma jovem que há 14 dias passou por uma experiência única na vida de uma mulher, ser mãe, ter um filho. Todos sabem que existe dor no parto, mas ela não precisa ser traumática. Essa jovem ainda hoje está hospitalizada, com infecções, resultado de um parto traumático, tanto físico quanto psicológico.



“Eu já não sentia nada, não sei o que fizeram, só sei de uma coisa, que o meu corpo foi violado, a partir do momento  que não respeitaram minha decisão de fazer uma cesariana. Minha bolsa não rompeu, ele a rompeu antes mesmo de irmos pra sala de parto, e quando eles perceberam que a nossa vida estava em risco, até cogitaram trazer um antigo médico do hospital para fazer meu parto, algo que só me fez perceber que eles não tinham mais certeza se nós iríamos resistir, e por Deus, eu e meu filho sobrevivemos. Depois de 12 dias voltei ao hospital, e ter que olhar pra esse médico... na oportunidade vou pergunta-lo se quem tinha razão era ele ou eu? Apesar da resposta ser óbvia.”





A situação em que Vânia foi vítima, se tem visto por décadas, com tolerância. Por essa visão tradicional, uma certa rudeza era consequência natural da série de decisões rápidas que médicos, enfermeiros e atendentes hospitalares têm de tomar, a fim de realizar partos em sequência e evitar imprevistos. Os profissionais não poderiam ser importunados por dúvidas fora de hora ou por vontades peculiares de cada família. Não mais. Hoje, abusos são reconhecidos como tal e recebem o nome de violência obstétrica.



A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a expressão como o conjunto de atos desrespeitosos, abusos, maus-tratos e negligência contra a mulher e o bebê, antes, durante e depois do parto, que equivalem a uma violação dos direitos humanos fundamentais. Porém, muitas pessoas nem sabe que isso é crime.





Dados de 2015



 “Algumas pessoas já me perguntaram se vou deixar essa situação como estar, ou se vou procurar outros meios pra tentar impedir que isso acabe ocorrendo com outras pessoas. Eu resolvi contar minha história. Espero que isso não volte a se repetir com ninguém. Pra mim, o que mais quero é minha saúde de volta, já que agora tenho um filho que depende de mim. Enfim está nas mãos de DEUS ...”



Essa jovem não é a primeira mulher a relatar arbitrariedade e constrangimento na hora do parto em Luzilândia. Karla Eugênia, não teve a mesma sorte que Vânia. Ela, que sonhava em ser mãe, teve seu filho em seu ventre por sete meses.  O anjinho Joaquim Lucas, como hoje ela o chama, veio ao mundo já sem vida.  Para Karla, a arbitrariedade de uma médica foi quem ocasionou o desfecho triste de sua história.



“Ela disse que não parava minha dor porque eu estava agitada. Ela aplicou Diazepam, e nunca fez o toque em mim. Nunca! Pior, foi embora e me deixou morrendo de dor em cima de uma cama. Dr. Sabóia que chegou, fez o toque e me encaminhou para Teresina, estava acompanhada da técnica de enfermagem T.B, mas meu bebê nasceu no meio da estrada,                       dentro da ambulância, prematuro, sem chance de sobreviver”, relata.  





Nem sempre desfechos tristes como o que aconteceu com Karla Eugênia e Vânia é negligência somente médica. A falta de estrutura e condições adequadas de atendimento do hospital em Luzilândia reforçam os riscos de morte em alguns procedimentos que deveriam ser simples. Valéria Paiva, irmã de Vânia, conta que no hospital onde a irmã foi atendida, negaram-lhe o direito de acompanha-la na hora do parto, mesmo ela sabendo que é assegurado por lei à parturiente ter um acompanhante. Segundo Valéria, o médico alegou que ela poderia atrapalhar o procedimento por nervosismo, ou não entender sobre as técnicas usadas por eles, mas o que mais tarde ela soube foi que a motivação deu-se por falta de roupa esterilizada para acompanhantes, inclusive para outros profissionais que também iriam acompanhar o parto, mas que não puderam pelo mesmo motivo. Casos como esse pode ser mais frequentes do que se imagina, isso pelo fato de não ter médicos capacitados para a realização de um procedimento cirúrgico de cesariana, visto que o único médico capaz estava de folga.



Vânia recebeu várias injeções e foi induzida por várias vezes ao parto normal, e por fim foi enviada às pressas para o hospital de Esperantina, onde finalmente teve seu bebê, o pequeno Benício, que está acompanhando a mãe, agora internada em uma maternidade em Teresina para se tratar de uma infecção que persiste desde o fatídico parto.



Essa reportagem não ouviu o outro lado da história porque não existe um outro lado para dor e perda. Existe sim uma frustração e o desejo que coisas desse tipo não se repitam. Mas o espaço neste site está á disposição. A discussão aberta sobre o tema é benéfica, não somente para as vítimas, mas para toda a sociedade, porque os relatos de acontecimentos parecidos como os citados nesta reportagem é mais comum que deveria, e o que não se pode mais é calar, e aceitar como normal dor, perda e frustração de que nada pode ou poderia ser feito.





Fontes consultadas para realização desta reportagem



Revista Época



Nascer Brasil



 



Colaboração: Valéria Paiva



 



 


FONTE: Reportagem de Paula Andreas/ Redação do Clica Luzilândia
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